quinta-feira, 22 de maio de 2008

Glórias Repulsivas

- Céus, que proporções tomam uma mentira!Malditas sejam as almas boas, as que juram jamais serem corrompidas, que se apegam a um Deus morto e adotado.Aquele que não tinha amigos, aquele que não tinha um amor: eis esse o vosso senhor!Um nazareno vil e cruel, cujo sangue destila fel e que jaz agora crucificado, sangrando aquele sangue pútrido, agonizando, eternamente retorcido. Orgulhoso a ponto de não admitir seu desejo, ele caiu no rio espantado com sua própria beleza, feito Narciso!Pobre Cristo!...e quem sou que julgo o mito?

- És uma simplória qualquer, menina!E vejo, desconhece as verdadeiras razões da fé!Não leste nunca o livro sagrado?Não acredita em Deus?O que faz então enfornada em um templo, ó herege?

- Digamos que sim, acredito em Deus; Mas não em Jesus, não a ponto de considerar aquele livro sagrado...herege?Não passo de uma bruxa que nutre-se de plasma...tenho minhas próprias regras, posso ser perversa, maquiavélica...Sabe, alguns sofrimentos me deleitam, mas a presença d'Ela me deprime. Ela está sempre aqui, me observando com seus olhos fundos, implorando silenciosamente, por algo que desconheço. No almoço, no jantar, nos momentos de êxtase ou diversão, lá está ela e seus olhos suplicantes...

- Oh senhora!Vejo que delira e não posso tomar como certas as suas palavras...balbucia feito louca uma infinidade de heresias infundadas que maculam meus tímpanos!Oh Cristo, tende piedade dessa incrédula que não sabe o que diz!Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz!Sim, a paz senhorita!

- Paz, meu senhor?O que vem a ser mais essa palavra que representa uma sensação utópica?Deleite, Delírio, Paixão, essas sim, são as engrenagens da vi...

- Não seja tola, criança!Olhe bem, bastarda, a vida não se resume a sua pútrida alma ou suas vis concepções...diga-me, se, por acaso seria perseguida se fosse meiga e doce como uma garota qualquer. se restringisse suas preocupações às tarefas diárias ao invés de buscar afundar-se, cada vez mais, no campo lodacento de conhecimento exacerbado.

(22/06/06)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Violamento intelectual gratuito

"Basta um revés para a igreja pular em cima."
"Ser fiel é saber argumentar."
-Carol-

Há muito deixei de fazer tipo - roupa preta e o escambau - porém, ouvir heavy metal é algo que estigmatiza deveras. Parece também que ironia e escárnio são ambas dádivas do demônio - sim, queles que não costumam chamar pelo nome -o que faz de qualquer movimento - inclusive de respiração - atos de complexa heresia.

Ontem roubaram a minha cadela, Marie.Isso representa uma carga grande, porque é o meu segundo Yorkshire roubado sorrateiramente nas pacatas ruas de Vila Velha City.Quando o primeiro sumiu eu deveria ter por volta de dez anos. Ainda assim odiei, esbravejei e tive alucinações.Dessa vez, no entanto, a auto-defesa cumpriu o seu dever: arrancou o que brotaria de sentimento profundo. Talvez seja a experiência, realmente não sei, mas o domingo foi uma espécie de luto anestesiado, sozinha em casa, após revirar o bairro em que nenhuma alma a viu.

Quando minha mãe chegou começou a 'palestra' religiosa - que, por sinal, só faltou um violão em sol maior e os sussurros típicos. Como ela é do tipo que já passou por diversas religiões e o que se considera seita, acaba por ser uma "palestra" bem ecumênica, embora o conteúdo seja bastante sólido. É incrível como se aproveitam da fragilidade, do mal estar revisto para instigar auto-análises que, no fundo, são impregnadas de intenções plenas de lançá-lo de encontro a algum Deus- cristão, diga-se de passagem. Este é o erro.

Por que você se desliga do que supõem que seja a fé? Simples, porque ela é poder pra minoria que tende a aprisionar as demais bitolando-as gradativamentecômica a degradação deles...que não se importam em serem fantoches de doutrinas austeras.

Pra eles você é presa. Se for, minimamente, retráctil, pode contar que cairá nos argumentos fajutos. Para destruir fiéis convictos, a melhor coisa é ser irredutível, aguentar pressão sem deixar que convença.Não importam ofensas, xingamentos ou julgamentos. Atéia ou não, após os 18 anos e enquanto não houver o 'grandiosissimo' Santo Ofício.Podemos optar pelo olhar emotivo da crença arrebatada ou manter o equilíbrio, isto é, o suposto caminho de sofrimento, danação e revés; até acontecer de tentarem, passar a rasteira e converterem às suas igrejas, em fiel.

Tsk Tsk Tsk. Comigo não, ecorreitos.

PS: É apenas uma reflexão. Por favor, nada de "Carol fez uma declaração deísta, ateísta, satanista" ou o que for.

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Aliás, apenas uma mente perturbada pelo demónio é capaz de fazer histórias de terror. Em breve novidades catastróficas: www.surrealismotrash.blogspot.com.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A Vida NÃO é fácil

“A vida não é fácil”, embora seja comum pensarmos que certas pessoas carregam uma cruz bem menor e mais leve que a nossa, todos têm os seus próprios pesares. Estamos sempre à espera de uma ‘justiça’ que não vem (ou virá) nunca e, tendo mentes desvinculadas de crenças e ídolos a aflição cresce substancialmente...

* * *

Desejamos que ‘alguém’ reduza minimamente esse peso para que possamos seguir em frente sem maiores prejuízos, afinal, quem somos para estarmos submetidos à tão árdua pena?É um aspecto constrangedor mesmo a nós mesmos, o ato de pensar em todos os aspectos favoráveis e os negativos e pesá-los tomando outra como referência... será que pedimos demais?Até que ponto nossa suposta arrogância e descontentamento são aspectos subversivos gerados a partir de mentes egocêntricas?Nada é absoluto e imutável,assim como tudo tem infinitos lados, sempre e sempre.

De fato, somos seres incompreendidos. Seres humanos como os outros despejados ao acaso nesse planeta. Pois é, nos perguntamos ‘por que nós’ que somos virtuosos?

Choramos pela falta de oportunidade, pela indiferença, pela rejeição (Por que nós?) e, como os demais, lutamos até o fim para ter aqueles que tanto amamos próximos... Exatamente aqueles que proferem o ‘xeque mate’ ao coração blindado. Desejar o mínimo e não ter... tão dúbio porque tantos acabam por ter menos ainda...a injustiça do querer mais acaba por se inverter, não é mesmo?

Lançar um novo olhar através de um prisma, que, acaba por fazer ‘distribuir-se’ de uma luz, uma cor, ou mesmo facho em várias cores distintas.

* * *

...Quando o turbilhão de sensações provenientes das nuances absurdas da vida vêm à tona, deitamos e refletimos sobre suas razões/causas/conseqüências... o normal é nesse momento darmos-nos conta do quão estamos sós e da falta de importância das coisas...um vazio extremo.

Antes o ódio, antes a dor, porque o não sentir é ermo, oco como madeira podre, mas, ao contrário dessa, inutilizável. Antes o choro à aceitação, porque acomodar-se é o caminho mais fácil, não exige a matéria prima máxima chamada utopia. Aquelas singularidades que são para poucos.

Às vezes eu não queria ser aquela pessoa ‘correta’, ‘grande’ e forte, porque farsas têm maior valor e utilidade aparente. Não queria ter que acordar cedo aos sábados para ver todo um painel de ‘um ano perdido’ e professores indiferentes que passaram pela minha vida acadêmica fundamental trazidos à tona. Não é nada agradável pensar em todo um ano o qual permaneci integralmente o dia de sábado no colégio tendo aulas, domingos estudando, madrugadas, abdicações em cima de abdicações pelo objetivo, pela visão posterior... a bonança que, pela justiça, deveria vir.Não é agradável, mas se faz necessário. Se você não é como a massa, o revés é sempre um aprendizado benéfico em todo o seu contexto dificultoso. Há sempre o que se aprender, não é pela dispensa de tempo, mas pela situação que desprende “o não passar no vestibular”... mesmo assim, as lamentações são inevitáveis...

Quantos na saída da universidade são inúteis e não fizeram por merecer, não se sujeitaram às ‘perdas’? Vejo estampada em suas faces um misto de deslocamento (por não saberem do por que de terem conseguido) e superioridade, afinal, desbancaram muitos daqueles que urraram e que viram o sangue mesclado ao suor escorrer pelas faces: o esquálido sorriso morrer em um papel... os supostamente preparados. Por que não considerarem-se melhores que nós?Não se esforçaram e conseguiram o que NÓS mais queríamos e fizemos por onde... È uma infâmia, claro. Não vai deixar de ser nunca. É, de fato, Perfeitamente passível de reparo, todavia, não por isso há de se tornar suave.

Isso porque o ressentimento foi substituído, em grande parte, pelo sonho possível, alcançado pela garra e perseverança. Conceitos presentes apenas nas almas afãs dos dignos.



quinta-feira, 24 de abril de 2008

Espúrio Execrável

Dor é sistema, dor é estação
dor é ordem.

Permissividade alheia pungente
Riscos:
auto-piedade - volátil
falsas impressões - doentias concepções

Eu preciso morrer
nem que seja por mero instante
mesmo que seja precipitado

GARGANTA DERRAMA GOTAS DE FEL
EXPEÇE PEDRAS RIJAS PÚTRIDAS
EXCRETA ÓDIO - até então circulava inquieto
EXPLODE TUMOR DE MAU AGOURO

imensurável náusea
repugnância não classificável
- Espúria criança, por que você?
Minha alma agra e afã

descolam placas de matéria podre
e vomito pedaços em fétidos
...ao acaso nada se resolve.

Por horas Nada faz sentido
e parecem pedaços em meio a emaranhados voluteis - voláteis
Esquecer não resolve
nem mesmo amenisa
Inflamação não se cura porque Deus quer.

quarta-feira, 26 de março de 2008

De lugar nenhum

Não sou do mesmo lugar dessa massa alienada que não pensa - apenas ingere e defeca aquele bolo ideológico de 'fast food' sem digerir.

Isto é, da mesma religião - ignorância - desses patos que se julgam superiores a tudo e todos pura e simplesmente por conta das linhas que as fazem fantoches pitorescos.
Patos que julgam a amoralidade alheia, mas que a seguem como uma crença permeada de fundamentalismo fajuto e grudento.

Estou cançada. Não somente da prole mesquinha atolada na mediocridade concentida e adorável...mas desse mundo. Noites sem dormir, funk ofencivo, músicas que falam de amor e traição, ideologias maciças, providência divina, manipulação barata, modas em série, apologias grotescas.

Tudo sintético e irreal - ao menos quero acreditar que seja.

O mundo é uma piada.
Porque se não for, enlouqueço.

*Um Estado laico que permite intervensão da Igreja? (aquela mesma da inquisição e afins)
*Crianças jogadas e rios e latas de lixo?
*Fome, violência, corrupção?
*Preguiça de pensar e absenção de filosofia?
* O mito contemporâneo de que a "era da informação" permite a democratização e transparência de informações sigilosas?
*...E ninguém pra refletir sobre tudo isso?

- É pra rir, só se for.

"Comentário de uma adolescente arrogante, possivelmente o pior e mais misantrópico ser desse planeta que caminha a passos largos rumo à destruição. "

segunda-feira, 17 de março de 2008

Gritos e Esquizofrenia

Grito alto
No entanto, ninguém ouve.
Minhas mãos tremem
e meus lábios proferem palavras repetidas
expelem o que também sou incapaz de ouvir.

- É justo?

A vida é dificil
Coragem é pra poucos
Lágrimas irrompem
e completam a peça.
Minhas mãos tremem
e anseiam por algo que possam agarrar.

Nenhum deus.Nenhum ser humano.
Apenas uma alma nobre e deslocada.
APENAS UMA MENTE DISTANTE
Em busca de um mundo decente
Nada mais que esperança e sonhos
Nada mais que esforço e lágrimas
Nada mais que destilação de sangue.

sexta-feira, 7 de março de 2008

HeHEHe

*Pense nas caracteristicas de uma animal que você goste muito.
*Qual a sensação que o mar transmite a você?

A primeira é uma caracteristica sua. A segunda como se comporta em relação ao sexo.

(piadinhas by pré vestibular)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Arrebol















Que o arrebol seja supremo,
intenso e incendiário.

Que venha, absolutamente,
o que deve vir...sem pressa.

A ordem de tudo, intensamente,
Há ordem.

As primaveras e o verão de morte.
As estações se passam, como devem passar.

A dor fere, impregnada de pesar.
As dificuldades parecem ser intransponíveis.

O passado que não é seu
deprime.
A primavera não floresceu quando deveria?
morte
silenciosa
passiva
compassiva.
Caos de dentro
...Tempestuoso...
que pode sempre piorar...




quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O CAVALEIRO E A SONHADORA

Por Anne Caroline Quiangala


O pesadelo era como um salto

Através da busca desconexa por si mesma

Ela mergulhou no abismo obscuro...

Corpo violáceo de encontro ao oceano brumoso,

No patamar mais profundo e desconhecido...

***

Despertou do súbito desmaio pulsante

Em território jamais visto,

Oceano era borrão irreal, percebeu que era

Pincelado com violência inaudível...

Inundando todo o porão interminável...

***

Trilhou todo o caminho do deserto glacial

Rumo à porta, que estava trancada...

Até que veio o mal, alto, forte, oculto

Carregando-a rumo às sombras

Pelas masmorras úmidas e ruínas esquecidas...

***

- É ela quem troca um prazer momentâneo

Instante;

Pela eternidade a abraçá-la,

Simplesmente não consegue ir-se –

***

Esqueceu que era portadora da CHAVE

Mais tarde cairia em prantos pelo erro.

Nada podia ser pior...

No calabouço havia sepulturas...

Enquanto divagava foi tocada por um algo frio...

***

Um guerreiro ferido na ETERNIDADE

Frio, cruento, face marcada:

“Vim buscá-la, noiva minha”.

Com estaca em punho e,

Dominada por um amor inexorável...

***

Perfurou o peito duas vezes morto,

Liberando o demônio malévolo,

Urro de morte, letal...

Dia e noite...

Memórias impossíveis de abstrair...

***

Inferno astral, soturno, sombrio...

Foi-se o homem mau

Abrupto como o início...

Sumiu o noivo; então chorou ela:

I-ELEGIA

“Era ele que enxergava com teus olhos

E com a tua boca alimentava-se,

Mas o fruto era podre, proibido:

To will - To die

Decidido a ir de encontro ao palácio

Na morte, o mármore da cor dos olhos

Castigo nas mãos de Hades

To wish – A death

O fim de tudo é recomeço:

Desejo... Reencontro... Morte”.

II-PSEUDO ÈPICA

...E ele percorria os campos

Cavalgando alucinado

Líder, à frente, de negro

À frente, ao centro de dois outros...

O estandarte negro de dragão

Foi cravado na mãe TERRA

Sorriso malévolo nos lábios...

Desembainhado metal faminto...

“Que viessem”, e vieram

Montando cavalos alados vieram

Homens que não eram homens...

Iniciou-se a batalha...

E o guerreiro trespassou a espada através dos peitos macilentos

Liberando um a um (terríveis agouros)...

Ouviam-se grunhidos de alívio...

O MONSTRO líder retalhou

Golpeando com suas lanças primitivas...

Cercaram um cavaleiro, ao sinal, atacaram-no.

Ele gemeu e caiu, estatelado...

***

As bestas ruíram como hienas famintas

Avançaram em busca de mais,

Os guerreiros permaneceram amenos

Alimentando o aço e a TERRA com o que lhes basta...

***

A medida que degolavam, os falsos homens caiam , seus cavalos fugiam

Galopando pelo céu escuro

Na noite que se estendia...

***

As criaturas bestiais, olhos em forma de fenda, apertados o apuro auricular permitindo ouvir os sons da floresta cessarem...

Cortou o ar e achou as víceras do guerreiro...

***

Ele caiu e o cavalo correu pela eternidade

O chão áspero lambendo as feridas

Recém traçadas na pele...

Fomenta ódio crescente...

***

O último deles pereceu

Ainda resistindo bravamente

Diversas lanças salpicadas pelo corpo

Cabeça perfurada, jorrando...

***

Os monstros urraram no breu

O fechar das pálpebras foi um consentimento à escuridão...

A CHAMA reacenderia...

***

No guerreiro a pele ressurgia

Construindo-se no sobrenatural...

E ele se levantou...

E foi o fim de tudo...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008


Hóstias, Cruzes, Água benta e afins.

Por Anne Caroline Quiangala

“This is killing us

Fighting the truth losing battle

We believe in nothing

Just hatred for each other

(…) no more, no more

This pain, must end”

(Silent wars - arch enemy)

Era uma noite de sexta feira treze de agosto, noite sombria e celestial em que eu aguardava (muito a contragosto) o grupo de oração para rezarmos o terço. Nunca fui uma devota fervorosa, mas, no entanto, sempre fui ávida pelo obscuro da fé. Percebendo isso, minha mãe, que participava dos ritos católicos de forma rigorosa e claramente obsessiva, me inseriu em certos hábitos, alegando desejar uma camuflagem perante todos, mas eu sabia, na verdade eram as minhas atitudes que o que condenava, era como se eu fosse herética. Era obrigatório participar sempre, caso contrário? Muitas coisas...

* * *

Minhas tendências naturais sempre foram contrárias às tradições ditas luminosas. Tanto que, antes de completar sete anos, meu pai levantou a voz e ameaçou queimar-me após dissertar sobre a inquisição. Tudo isso devido a minha disciplina precoce, que, somada à aversão ao símbolo máximo cristão (a cruz) faziam de mim um bom bode expiatório. A cruz simplesmente me deixava doente; qualquer contato com a mais ínfima gota que fosse de água benta tornava meu humor irritadiço, a pele coçava a ponto de ferir; Tomar a hóstia foi um como um misterioso atentado à minha vida. Sabendo disso, no dia da minha primeira comunhão, a minha irmã mais velha, Scarlett, resolveu virar freira, adquirindo assim, o meu ódio mortal.

* * *

A casa fora limpa e adornada especialmente para aquele fim, mas como os convidados demoraram resolvi escutar música; fui para o quarto recém organizado e comecei a ouvir Arch Enemy. Por hora, inebriada pela música, agitava a cabeça alucinadamente, acompanhando os guturais e os riffs minuciosos; lembrei que estava a sós em casa, o que eu me deu um gosto adorável. Permaneci batendo cabeça, girando, até que... bati a cabeça com força na imensa caixa plástica para guardar CDs; os olhos abriram, de leve, purpúreos e estáticos, devido a dor muda incalculável . Olhei a minha face no espelho, o sangue brotava da porção direita da testa e escorria junto às lágrimas no lado atingido.

Não sei dizer como ou quando se deu o desmaio, ou se ele realmente aconteceu, mas, quando despertei, estava em um local escuro, úmido e fétido, os pulsos e os tornozelos em carne viva presos por um ferro, os lábios rachados e a testa dolorida. Estava deitada sobre uma superfície gosmenta, gelada e com forte cheiro de mofo.

Minhas pupilas logo se dilataram, então pude constatar uma silhueta se aproximando, trazendo consigo uma névoa fedorenta a qual me sinto incapacitada de descrever com precisão... Imagine uma tonelada de ratazanas em decomposição... não chegou sequer à metade do caminho...

Quando a criatura falou, emitiu um timbre viscoso, como que em desuso, enferrujado.

- Bem vinda ao meu confim... Sim, você encontrou as trevas que busca desde o início da inconsciência e do controle da consciência... Está aqui a seu bel-prazer, portanto.

Estranho aquele aspecto primitivo ser tão claro e mesmo inteligente, mas eu enrijecia ao menor avanço da criatura... Não, não poderia ser um humano.

* * *

Primeiro grande ato: deitou-se sobre mim; ouvi um som retorcido, era o seu arfar monstruoso. Quanto ao corpo, este era repulsivo; Tateei a face sulcada, o corpo deformado e senti aquela pele cascuda repleta de fendas e erupções que gotejavam gosma além de furúnculos em furo que pareciam tão frios como carne congelada; cada lufada inglória adormecia um dos sentidos.

Fiquei surpresa com minha aceitação amena, o controle que se apoderou de minha mente de forma inexplicável, para não dizer, sobrenatural. Acumulado com a isenção do pavor, uma outra sensação estridente foi tomando conta de cada célula do meu corpo que, por difusão, espalhava o calor lascivo, o desejo extremado por aquele monstro que no meu caso era o salvador; não aquele inábil príncipe de cavalo branco dos contos de fadas, mas o meu temível Nosferatu que habitava a nojenta enxovia que cobria meus lábios com beijos tépidos, afagos envolventes, luxuriosos e obscenos.

Tirou a manta grosseira que o cobria, exibindo nódoas moles, gosmentas; meu corpo emergiu ao retirar minhas vestes, até que nos enlaçamos em totalidade; éramos um paradoxo, uma simetria defeituosa que, cada vez mais, se tornava indistinta.

Atraí-me esplendorosamente pelo grotesco, pela Fera[*1]

repulsiva que não era capaz de repelir, até que...

* * *

No segundo ato ele deixou cair a sua máscara densa, terrível e mortífera. A partir daquele instante eu saberia o que estava intrínseco e acabaria por retomar o mau em meu inconsciente. Meu sombrio monstro emitia tenebrosos ruídos, que não podiam encobrir o som úmido e macilento das garras que emergiam pela carne acima dos dedos; garras estas que me perfuravam repetidas vezes como vigas, mergulhando em minhas víceras e trazendo à tona o líquido da vida, que, na escuridão, não era visível. Meus olhos estavam fechados, e a dor me forçou a apertá-los ainda mais como que tentando dissipar a dor enlouquecedora.

Minha primeira reação para tentar me desvencilhar daquela mistura homogênea e colossal, foi me debater; entretanto, força descomunal dele anulava qualquer possibilidade de movimentação da minha parte.

O Desejo me forçava ao contato físico total. Logo as garras alcançaram as minhas costas; deliciando-se com a minha dor ele permitiu que eu redobrasse o corpo e o contorcesse, escapando daquela maldita dor que me afligia. Meu ódio era controverso, era ódio por mim, não por ele; Em resposta aos meus pensamentos ele me concedeu o mais perverso e violento açoite, como que desprendendo de si uma enorme carga.

De súbito abri os olhos. Resisti. Ao menos tentei. O corpo físico precisava sucumbir, mas a batalha ferrenha se estabelecia entre a Alma e a Morte...

O meu vômito sanguíneo era sugado com voracidade pela besta. Sentia em meus lábios um fluido agridoce invadir a boca... Como desejava repeli-lo... Busquei reunir ao máximo a força do meu âmago, enquanto ele se deleitava com a minha dor, enquanto a vida não falta, apesar de que estivesse fugindo... Era uma ampulheta pequena... O que está em cima vem para baixo e vice versa...

Um lampejo exibia minha infância, eu buscava o suicídio através de um copo com água... Sorri brevemente sentindo a violência em seguida. Tentei empurrá-lo, mas minha força foi neutralizada de modo imaterial. Por um segundo perpetuou o silêncio vazio e sinistro... Vislumbrei o som monótono e rigidamente imutável do órgão, as velas sendo acesas no altar com cuidado... A cruz que reneguei... Mas trazia junto ao corpo algo que não pude me desfazer: um escapulário que ganhei há muito tempo...

Ouvi um baque brusco e estrondoso; formou-se um buraco sobre as nossas cabeças por onde se infiltrava a luz da rua e exibia os nossos corpos enlaçados. Como que por milagre, criaturas semelhantes àquela que permanecia sobre mim desceram para o esgoto afastando os insetos a volta e, em seguida, retirando o meu cavalheiro brutal com violência distinta, lançando-o à Estirge[*2] negra vinda dos canos; aproveitei a deixa, me recompus com dificuldade, e, nua, busquei correr à procura de uma saída.

Os demais nosferatus me alcançaram e formaram um círculo inviolável a minha volta, circulo este que se fechava muito rapidamente.

Desejei ver a cruz, tomar o sangue, comer o corpo e nutri-me da água das águas (não menos lodacenta por isso)... Quem me encontraria em um local como esse? Um estranho medo se instalou em minha mente, o pânico. Não fui capaz ao menos de gritar sabia, no fundo o que isso ocasionaria... Eles ouviam os meus pensamentos e, em reação a eles exibiram as dentições e as faces medonhas mais mutiladas, chaguentas e cobertas por liquens, circundando-me, eu como a presa em meio a uma matilha esfomeada... Eles andavam em círculos, os dois sulcos que envolviam os olhos amarelos cujas pupilas em formato de fenda fixavam - se em minha figura, ao menor movimento do corpo trêmulo que se entregava a passos curtos à rendição total.

Deitei no chão como forma de submissão, fechei os olhos e me entreguei à morte. Cada vez mais me afastava desse mundo, embora tenha ouvido por algum tempo o balbuciar mórbido, corpulento e enegrecido:

- Nosso aspecto atordoa nobre princesinha? Nós somos as sombras, e dor é o que nos alimenta e dá prazer... Assim como Baudelaire apreciamos a “estética do feio”. Resta saber se você está apta. O que me diz? Aceita, ou regressará aos santos, às cruzes e os mantras monótonos?

Arquejei, com efeito, sob os tentáculos dispensados sobre mim, a cabeça latejando, o pulsar longínquo retornando... Mexi os dedos arraigando espírito à carne tão logo fria como que estimulada pelo golpe rasteiro em meu único pertence junto ao corpo deformado...

Todos os seres ardilosos e asquerosos se aproximaram, curvando-se sobre mim como se eu fosse um oásis no deserto; fui sentindo o corpo sendo perfurado com veemência... Sim eu aceitara o voto das sombras, passei a ser uma criança da noite, a notívaga e destroçada Bela como me chamaram

[*1]“A Bela e a Fera”, da Disney.

[*2]Rio do inferno


PS: ESSE CONTO PODE SER CONFERIDO NO SITE CONTOS DE TERROR:

http://www.contosdeterror.com.br/contos/hostias.html